sábado, 10 de novembro de 2012

Sangue Ruim

de Rimbaud

Tenho de meus ancestrais gauleses o olho azul claro, a cabeça dura e a pouca inclinação para a luta. Meus trajes me parecem tão bárbaros quanto os deles, mas eu não besunto de banha minha cabeleira.Os gauleses eram os mais inaptos despeladores de animais, os mais ridículos queimadores de grama de sua época.Deles eu herdei a idolatria e o amor ao sacrilégio; - oh! todos os vícios, ira e luxúria - magnífica, a luxúria; - mais que tudo, o perjúrio e a preguiça.Tenho horror aos ofícios. Mestres, trabalhadores e camponeses, todos uns ignóbeis! A mão na pena bem vale a mão na carroça - Que século pródigo de mãos! - Eu jamais estenderia a minha mão. Afinal, a domesticidade leva longe demais. A honestidade da mendicância me embaraça. Os criminosos são de revirar o estômago tanto quanto os castrados (eu, de minha parte, estou intacto, o que para mim tanto faz).E no entanto! quem terá feito de minha língua algo tão pérfido a ponto de resguardar e conduzir até aqui esta minha preguiça? Sem ao menos me permitir que eu viva de meu corpo e mais inativo que um sapo, eu vivo por aí. Não há nenhuma família na Europa que eu não conheça. - famílias como a minha, que modelam-se segundo a Declaração dos Direitos do Homem. Eu conheci cada filho de família!
****
Ah, se eu tivesse antecedentes em um ponto qualquer da história da França!
Mas não, nada disso.
Cá com meus botões, é bem óbvio que eu sempre fui raça inferior. Eu não pude compreender a revolta. Jamais minha raça se lançou à pilhagem - como os lobos à presa que eles pouparam.

Repasso em lembrança a história da França, primogênita da Igreja. Vilão, eu teria partido à terra santa; trago na cabeça as rotas das planícies suábias, vistas de Bizâncio, as muralhas dos Sólimos; o culto de Maria, - em mim o compadecimento pelo crucificado desperta por entre enlevos profanos - estou sentado sobre urtigas e cacos de jarros espatifados, um leproso ao pé do muro roído pelo Sol. - Mais tarde, cavaleiro teutônico, eu bivacaria sob as noites d'Alemanha.Ah!, eu danso o sabá numa clareira rubra com velhas e crianças.Minha memória não me leva muito além desta terra e do cristianismo. Eu me observaria a não mais poder no passado. Mas sempre só; sem família; falando às pedras em todas as línguas. Jamais me vejo nos conselhos de Cristo; nem nos conselhos dos Senhores - os representantes do Cristo.Que era eu no último século?: não me encontro em outro tempo que não este aqui. Vagabundos demais, guerras vagas demais. A raça inferior tudo recobriu - o povo, como se costuma dizer, a razão; a nação e a ciência.Oh!, a ciência! Tudo já retomamos. Para o corpo e para a alma, - o viático, - temos a medicina e a filosofia, - os remédios das senhoras caridosas e as canções populares bem marteladas. Os folguedos dos príncipes e os brinquedos que eles proibiam! Geografia, cosmografia, mecânica, química!...A ciência, a nova nobreza! O progresso. Assim caminha a humanidade! Afinal, por qual bom motivo o mundo deixaria de rodar?É a sublime visão dos números. Vamos, sigamos em marcha rumo ao Espírito! É muito provavelmente certo, é oracular o que eu digo. Compreendo tudo e, em não poder me explicar com palavras pagãs, eu preferiria me calar.
*****
O sangue pagão ressuma! O Espírito está próximo. Por que o Cristo não acorre, não estende a mão à minha alma, nobreza e liberdade? Ai de mim! O Evangelho se foi! O Evangelho! O Evangelho.Em Ti espero com glutonia! Sou raça inferior para toda a eternidade.Eis-me aqui nas praias armoricanas. Que as cidades se iluminem ao cair da tarde. Minha jornada está cumprida; eu deixo a Europa. A maresia queimará meus pulmões; as paragens mais recônditas me bronzearão. Nadar, pisar a relva, caçar, sobretudo fumar; beber licores fortes como o metal liquefeito, borbulhante - tal qual faziam meus queridos ancestrais ao redor das fogueiras.Quando eu voltar, terei membros de ferro, a pele escura, os olhos em fúria: sob minha máscara, hão de me considerar raça forte. Nadarei em ouro: serei ócio e brutalidade. As mulheres pajeiam esses ferozes enfermos egressos de países quentes. Me embrenharei na política, estarei salvo.Agora sou maldito, tenho horror à patria. O melhor é mesmo um sol ébrio queimando as ervas daninhas sous le pavé.
****
Não partimos - Retomemos nossos caminhos daqui, munidos de meu vício, o vício que fez abrir em flor essas raízes de sofrimento, desde a idade da razão - que sobe aos céus, me arrebenta, me derruba, me arrasta.A última inocência e a última timidez. Está dito. Não atribuir ao mundo meus desgostos, minhas traições.Vamos! A marcha, o fardo, o deserto, o tédio e a cólera.A quem hei de louvar? A qual besta devo adorar? Qual santa imagem é preciso atacar? Quais corações arrebentar? Qual mentira devo perseguir? - Passar imperturbável... sobre qual sangue?Acima de tudo reguardar-se da justiça - a vida dura, o embrutecimento puro e simples - erguer, o punho exangue, o tampo do caixão; acomodar-se, sufocar-se. Assim, sem um pingo de velhice ou de perigo: o pavor não é lá muito francês.Ah! Estou a tal ponto desenganado que ofereço arroubos de perfeição a imagens divinas quaisquer.Oh, minha abnegação; oh, minha maravilhosa caridade! ao rés do chão, no entanto!
De profundis Domine, como sou besta!

****

Pequeno de tudo, eu já admirava o forçado intratável trancafiado sempre nas galeras; eu visitava os armazéns e as guarnições que ele sagrava em sua estadia; eu o via em ideia destacando-se do céu azul e do trabalho florescente nos campos; eu farejava os rastros de sua fatalidade cidade adentro. Mais forte que um santo, mais sensato que o mais experiente dos viajantes - ele, ele apenas! como testemunha de sua própria glória e razão.

Nas estradas, sob as noites de inverno, aos farrapos, sem mansarda, sem pão, uma voz estreitando meu coração enregelado: "Força ou debilidade: eis tu, isto é força! Não sabes para onde vais nem por quê, penetras todos os lugares, respondes a tudo. E não estarias mais assassinado se fosses cadáver". Na manha seguinte, estavam meus olhos tão perdidos e meus contornos tão apagados, que os que passaram por mim talvez não me tenham visto.

Nas cidades a lama me parecia de repente vermelha e negra, como a vidraça que a luz da lamparina em movimento acende e apaga, como um tesouro no bosque! Boa sorte, eu gritava, e via um mar de chamas e de fumaça nos céus; e à esquerda, e à direita, todas as riquezas crepitando como um milhão de raios.

Mas a orgia e a companhia das mulheres me haviam proibido. Sequer um companheiro. Eu me via diante de uma multidão exasperada, diante do pelotão de execução, chorando e perdoando uma desdita que eles jamais poderiam compreender! - Como Joana D'Arc! -"Padres, professores, mestres, enganai-vos em submeter-me à justiça. Jamais pertenci a esta gente; jamais fui cristão; sou da raça dos que cantavam durante o suplício; eu não compreendo as leis; falta-me um pingo que seja de senso moral; sou um bruto: enganai-vos". Sim, eu tenho olhos fechados à vossa luz. Eu sou uma besta, um negro. Mas posso ser salvo; enquanto vós, vós sois falsos negros - vós maníacos, vós ferozes, vós avaros. Mercador, és negro; magistrado, és negro; general, és negro; imperador, velha degustação, és negro: tu bebeste de um licor não taxado da bodega do diabo - Este povo é inspirado pela febre e pelo câncer. Enfermos e velhos caquéticos são tão respeitaveis que é como se pedissem para serem desmanchados em água fervente - Astúcia seria deixar para trás este continente, onde a loucura vai à luta para prover de reféns esses miseráveis. Eu adentro o verdadeiro reino dos filhos de Cham...

Conhecerei eu ainda a natureza? Conhecerei a mim mesmo? - Palavras demais. Eu enterrei os mortos no meu ventre. Gritos, tambores, dança, dança, dança, dança! Mal posso esperar a hora em que, os brancos desembarcados, eu cairei no nada.

Fome, sede, gritos, dança, dança, dança, dança!

****

Os brancos desembarcam. O canhão! Mister submeter-se ao batismo, vestir-se, trabalhar.

A graça me trespassa o coração. Ah!, eu não previa.

Nada fiz de mal a ninguém. Os dias me serão leves, serei poupado da expiação. Eu não haveria de sofrer as tormentas do bem sobre a alma moribunda, de onde emana a luz severa das velas funerárias. A sorte dos filhos de família, caixão prematuro recoberto de límpidas lágrimas. Sem dúvida a libertinagem é bestial, o vício é bestial; deve-se descartar toda podridão. Mas jamais o relógio ressoará nada além da hora da mais pura dor! Sofrerei a ascese das crianças, para folgar no paraíso ao abrigo de toda míséria!

Rápido! Haverá outras saídas? - O sono conciliado na riqueza é impossível. A riqueza sempre foi bem público. Só o amor divino outorga as chaves da ciência. Vejo que a natureza é mesmo um espetáculo de bondade. Adeus quimeras, erros, ideais.

O canto razoável dos anjos se eleva do navio salvador: é o amor divino - Dois amores! Eu pude morrer de amor terrestre, morrer de devoção. Deixei para trás almas cuja pena aumentará com minha partida! Vós me escolhestes dentre os náufragos. Os que ficam não são meus pares?

Salvai-os!

A razão nasceu em mim. O mundo é justo. Eu abençoarei a vida. Eu amarei meus semelhantes. Ei-los, meus votos. Não são promessas de criança. Nem esperanças de furtar-me à velhice e à morte. Em Deus está minha força e eu louvo a Deus.

****

O tédio não é mais meu bem amado. As iras, as libertinagens, a loucura cujos elãs e desastres conheço - todo o meu fardo cai por terra. Apreciemos sem vertigem a amplidão de minha inocência.

Já não seria mais capaz de clamar pelo refrigério de uma paulada. Não acredito que embarco com destino ao himeneu, com Jesus Cristo como padrinho.

Eu não sou mais prisioneiro da minha razão. Eu disse: Deus, eu almejo a liberdade na salvação; como buscá-la? As frivolidades me abandonaram. Inúteis tornaram-se a devoção e o amor divino. Não me faz falta o século dos corações sensíveis. A cada qual sua razão, desprezo e caridade: eu retenho meu lugar nos píncaros desta angelical escala do bom senso.

Quanto à bondade estabelecida, doméstica ou não... não, eu não posso mais. Dissipo-me demais, sou frágil demais. A vida frutifica pelo trabalho, velha e boa verdade: já a minha não é suficientemente pesada. Ela evola e paira acima da ação, este estimado aspecto do mundo.

Vejam só como já estou virando uma meninota, perdendo a antiga coragem de amar a morte!

Se Deus me concedesse a calma celeste, aérea, a prece - como aos antigos santos. - Os santos! os fortes! os anacoretas! os artistas de verdade, hoje inúteis!

Farsa contínua! Minha inocência me faria chorar. A vida é uma farsa que todos devem sustentar.

****

Basta! Eis a punição. - Em marcha!

Ah, os pulmões queimam, as têmporas estalam! a noite revolve-se nos meus olhos, impelida por este Sol! o coração... os membros...

Para onde seguimos? Ao combate? Estou frágil! os demais avançam. As ferramentas, as armas... o tempo!...

Fogo! o fogo me envolve! Lá! Lá, onde me rendo. - Covardes! - Eu me mato! Me atiro e me espatifo sob os pés da cavalaria!

Ah!...

- Hei de me acostumar.

Será esta a vida francesa, a vereda da honra!

Neva no Rio de Janeiro

rio de janeiro,

menos 20 graus.
...

os patinadores cavalgam parelhos no espelho de gelo da lagoa.

o cristo redentor,

quase irreconhecível

assim,

com a neve cobrindo-lhe

o dorso das mãos pés braços ombros cabeça...

não fosse a justa localização e tamanho

poderia se suspeitar que fosse outrem ali:

um king-kong petrificado no apogeu da escalada;

uma esfinge, de pé, propondo a pantomima do seu enigma;

a estátua da liberdade − renunciando à tocha,

os braços semi-erguidos como asas, livre;

quiça a torre eiffel obesa

ou mesmo um patético espantalho gigante afugentando o sol...

a neve tomba sobre a cidade.

queda lentamente escorada pelo absoluto silêncio,

este silêncio hibernado há mais de quinhentos anos,

lapidando as hélices dos flocos

para o desbunde branco.

casais sobre esquis descem o pão de açúcar.

na baía de guanabara um pai puxa o filho no trenó.

pinguins aplaudem a aurora boreal no posto 9.

vai mesmo que o pau-brasil cisma desbotar na polônia

e uma ave gargarejar na rússia.

uzbequistão e suas palmeiras do mangue...

sibéria 40°...

hoje,

aqui,

são as neves de março que fecham o verão.

e promessa nenhuma.

nunca mais.

MICHEL MELAMED − in regurgitofagia, pág.105 − Ed.Objetiva

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Texto Julio

Deuses cruéis, na forma de crianças mimadas, invadiram a cidade do Rio de Janeiro usando seu poder de dominação para se divertirem com os humanos. As crianças humanas são obrigadas a matarem seus pais e são escravizadas pelos deuses. O céu está vermelho e a cidade está em chamas. Muitas crianças humanas se divertem com a destruição, são crianças tristes, abandonadas, que mal existiram e sentem já o peso do mundo, os deuses são salvadores, criam uma nova religião, uma religião das crianças, uma religião tão efêmera quanto a infância. Tem-se um cenário de angústia, pânico, repressão e destruição. Ouvem-se berros, gemidos e gritos de pais e crianças. As crianças religiosas são aquelas que obrigam a as outras a fazerem coisas em prol dos deuses. Elas se divertem, riem como hienas. As que têm medo, as não-religiosas, vêm qualquer atividade como um cenário de horror. Matar alguém e limpar as vísceras ou sorvetes do chão é tão terrível quanto. Apesar do fogo e do céu vermelho a cidade está congelando, um frio imenso, um chão branco de neve e gelo em contraste com o resto da paisagem. Algo foi arrancado da humanidade, a própria humanidade deve extirpar o mal pela raiz, começando pelos úteros e falos. Uma chuva de quarenta dias e quarenta noites de sangue, uma tempestade de dez anos, até que sobrem apenas as ruínas.

Jogo Campinho

Espaço 1 (Chão e Muro)
...
Poses -
Anjo
Ferro no estômago
Cara na parede
Ouvindo na parede
Através do muro
Sons -
Tá voando
Gozo
Risada
Alô, ei, oi
Assovio
Gestos -
Dedo-cabeça
Curvar o estômago
Pulo

Espaço 2 (Árvore e Rampa)
Poses -
Sereia
Abraço
Empurrar
Diagonal
Cachorro
Sons -
Ninar
Gutural
Esforço
Shhh
Ouau
Choro
Gestos -
Carinho
Tapa
Limpar
Não (choro)

Espaço 3 (Fundo)
Pose: Sentado
Som: Ei, eu
Gesto: Braço estendido

Os ratos

Os ratos



Essa história é a de uma senhora muito branca e muito limpa e que viveu a vida toda na mesma ruazinha. Desde criança sabia (mais por ter ouvido do que por sentir) que a rua era boa e bonita: Deus a tinha feito assim há milênios e desde então não houve pedra colocada ali que não seguisse a obra divina. Por mais que a rua tivesse crescido, os homens que ali viveram sempre se preocuparam em continuar a vontade e o estilo de Deus. Não eram homens muito dados ao trabalho, porque sabiam (mais por terem ouvido do que por sentirem) que onde viviam tudo já estava desde sempre, era preciso apenas continuar e admirar.

A senhora branca e limpa, quando completara idade adulta, comprara uma casa do outro lado da rua que lhe parecera (mais por ter ouvido...) muito boa, cujos fundos davam para um horizonte muito misterioso que ninguém se arriscava a contemplar. Por uma mais misteriosa ainda convenção geral, desse assunto ninguém falava. E quando, por descuido, alguém, fumando no quintal, olhava para o horizonte secreto, os olhos já se embaçavam sozinhos, rápidos, o tempo de a cabeça girar tranqüila, sem precisar negar. Eu soube por alto que por isso é que começaram a contratar empregadas domésticas: elas eram caladas e podiam ir ao quintal dos fundos sem gerar nenhum tipo de incômodo.

Para continuar a obra divina era preciso também ser muito feliz. E a senhora se orgulhava de sê-lo. Isso atraía turistas que traziam dinheiro para a manutenção do que era de Deus.

Num dia (e num dia muito errado, pois os estrangeiros viriam visita-la) a senhora descobriu, sobre seu telhado, um rato. Pensou em gritar. Mas calou, entrou em casa e preferiu continuar tomando seu café. E se as visitas chegassem e não vissem o rato, que mal haveria? Por outro lado, os ratos se multiplicam depressa e ela então imaginou dezenas deles sobre seu telhado, descendo pelos canos, vindo comer seu pão e suas bananas. De repente sentiu nojo de seus pães e de suas bananas (“Banana é comida de rato”). Seria o caso de agradar-lhes?
As visitas vieram e se foram, sem notar a presença do rato. Os dias vieram e se foram também, mas a senhora, antes de dormir, olhando para o teto, sempre o imaginava transparente, imaginava vários ratos vistos de baixo; de repente algum deles olhava para dentro do quarto, olhava na direção dela. A cada dia a população dos ratos aumentava em sua cabeça, e o medo era o de que eles desabassem sobre ela, de que caíssem, devorassem sua casa que era, afinal, uma obra divina; medo de que devorassem a ela própria, de que a devorassem como a um cordeiro, amém.

Certa de que os ratos existiam e se multiplicavam a cada dia, chamou um rapaz forte da rua para ajudar: subiram no telhado e, de fato, encontraram dois ratos. Era uma surpresa, uma grande surpresa triste, porque os ratos pertenciam à sua imaginação, ora essa, os seus pesadelos, seu medo antes de dormir – como lidar agora com essa realidade bruta, ali, no seu telhado? Por dentro da casa, abriram o forro do teto: entre o forro e o telhado é que a realidade se mostrava mais bruta: havia dezenas e dezenas de ratos, pretos, com seus olhos atentos e pedintes. A senhora chorou, primeiro por medo e, depois pela estranha sensação de sonho findo. Sonhar com coisas más era melhor que viver com coisas más. Ou com coisas simples. Sim: sonhar com coisas más era melhor que viver com coisas simples. As coisas simples nos fazem lembrar de que estamos vivos e nos aproximam do fim do mistério, assim como a aproximação do fim de um livro bom. Perigo iminente. Consciência plena demais da própria respiração. Agora, por trás das paredes verdes da casa, havia cimento, e por trás do cimento, tijolos empilhados.
Temendo a queda real dos ratos sobre sua cabeça, pensou em exterminá-los, de uma só vez. Mas o rapaz forte (que também estava muito assustado) propôs chamar um outro morador da rua, cientista, que poderiam resolver a questão de outra forma. O rapaz sabia que ele é que seria o encarregado de matar os ratos, mas também achava que, se os ratos estavam sobre aquele teto, naquela rua, é porque também eram criaturas de Deus.
O vizinho cientista apresentou o seguinte plano: trancar os ratos no teto mesmo, trocar o forro, as paredes altas e o telhado por vidro, de forma que todos na rua pudessem observar os bichinhos e compartilhar o estudo de seu comportamento. A senhora acatou a idéia sem saber porquê (mais porque sentisse do que por algo que ele a tenha dito, mais por sentir um tipo de salvação se aproximando).
Trancados os ratos no vidro, o passo seguinte seria deixá-los passar fome. Com o tempo, os ratos mais fortes mataram os pequenos e os comeram. Como se reproduziam depressa, se insistissem neste tipo de alimentação, não lhes faltaria comida. Os moradores da ruzinha observavam encantados o comportamento pitoresco das pequenas criaturas, se punham diante da casa da senhora, alguns colocavam escadas para ver mais de perto, e os mais íntimos viam de baixo, de dentro da casa. Isso trouxe muita visibilidade para a senhora e para o cientista, que publicou livros e foi chamado para dar aula na universidade onde os jovens felizes da rua estudavam.
Mas os ratos não eram bobos e, para eles, os seres humanos também estavam numa grande vitrine, para serem observados. Os ratos perceberam, a princípio, que a comida dos moradores era muito mais atraente. Depois notaram que sua forma de viver era muito mais divertida. Então se organizaram, e por uma brecha, de vez em quando passavam, em pequenos grupos, para roubar comida e pedaços de roupa. Tudo isso era feito à noite, de forma que quando a senhora e os outros moradores acordavam, se deparavam com a cena que julgavam patética: os ratos enrolados em pedaços de panos coloridos, copiando os seres humanos. No início pareceu engraçado, até que as roupas ficaram notoriamente esburacadas e o biscoito faltou para as crianças mais exigentes. Os moradores escutaram o plano do cientista: eliminar os ratos mais espertos. Depois, os mais fortes. Assim fizeram, e quando os ratos que sobraram se viram atordoados, o cientista apresentou uma proposta que escandalizou a todos: alimentar os ratos com migalhas e produzir roupas e objetos especialmente para eles, coisas que se assemelhassem às dos humanos, para que os ratos se sentissem acalentados, mas nunca superiores.

Os ratos, com o tempo, se acalmaram e até se tornaram amigos dos moradores. Os estrangeiros vinham vê-los também, e se encantavam com seus modos pitorescos, porém com leves toques de civilização. Estes fatos eram bons e distraiam os moradores. Inclusive o medo era bom. A senhora branca e limpa, por exemplo, de vez em quando inventava um sonho ruim: o de que os ratos se descontentariam, mais dia menos dia, e viriam desabar sobre ela. Estes medos eram quentes e a faziam esquecer-se do mistério escondido no horizonte.

Eu, que nunca morei naquela rua, posso dizer que o que havia no horizonte não era segredo nenhum: o que havia eram ratos, em maior quantidade, mais pretos, mais magros, com os olhos muito mais atentos e pedintes. A diferença é que eram fracos para pular o muro e não desabariam na cabeça de ninguém. Não botavam medo. Mas eram tristes de se ver.
 

Formigas

Uma mansâo. Uma mulher amargurada e uma empregada. A mulher quer tudo limpo, extremamente limpo, nem um fio do cabelo fora do lugar, nenhum fio de cabelo no sabonete, nada que fuja do arrumado. A empregada esfrega milhares de vezes mas as formigas sempre voltam.
No quintal, uma piscina vazia.
As formigas saem por um buraco e traçam trajetórias sobre os azulejos. As formigas invadem a casa, é uma peste, uma maldição milenar. Quando a mulher amargurada dorme, as formigas andam sobre sua pele. Ela se coça toda, acorda toda vermelha, não sabe porquê. Na certa a empregada sarnenta, suja, a empregada parda sarnenta suja com costeletas e um pouco de barba e cheiro de roupa suja. Uma infecção. A mulher dá sabonete para a empregada se limpar. Um dia inteiro passando sabonete no corpo pra sair esta coisa nojenta que você tem no teu corpo.
Formigas nos sabonetes.
Formigas em todos os lugares.
No quintal, perto da piscina, paredes com tijolos aparentes

O esquecimento

"Esquecer o esquecimento: Dom Ramón Gómez de la Serna contou a história de alguém que possuía tão má memória que um dia se esqueceu de que tinha má memória e se lembrou de tudo. Recordar o passado, para nos livrarmos de sua maldições: não para atar os pés do tempo presente, mas para que o presente caminhe livre das armadilhas. Há poucos séculos, dizia-se 'recordar' para significar 'despertar' e a palavra ainda é usada nesse sentido em algumas regiões da América Latina. A memória desperta é contraditória, como nós. Nunca está quieta e, conosco, vai mudando. Não nasceu para âncora. Tem, antes, vocaçãp de catapulta. Quer ser ponto de partida, não de chegada. Não renega a nostalgia, mas prefere a esperança, seu perigo, sua intempérie. Acreditavam os gregos que a memória era irmã do tempo e do mar, e não se enganavam."
Eduardo Galeano