Os ratos
Essa história é a de uma senhora muito branca e muito limpa e
que viveu a vida toda na mesma ruazinha. Desde criança sabia (mais por ter
ouvido do que por sentir) que a rua era boa e bonita: Deus a tinha feito assim
há milênios e desde então não houve pedra colocada ali que não seguisse a obra
divina. Por mais que a rua tivesse crescido, os homens que ali viveram sempre se
preocuparam em continuar a vontade e o estilo de Deus. Não eram homens muito
dados ao trabalho, porque sabiam (mais por terem ouvido do que por sentirem) que
onde viviam tudo já estava desde sempre, era preciso apenas continuar e admirar.
A senhora branca e limpa, quando completara idade adulta,
comprara uma casa do outro lado da rua que lhe parecera (mais por ter ouvido...)
muito boa, cujos fundos davam para um horizonte muito misterioso que ninguém se
arriscava a contemplar. Por uma mais misteriosa ainda convenção geral, desse
assunto ninguém falava. E quando, por descuido, alguém, fumando no quintal,
olhava para o horizonte secreto, os olhos já se embaçavam sozinhos, rápidos, o
tempo de a cabeça girar tranqüila, sem precisar negar. Eu soube por alto que por
isso é que começaram a contratar empregadas domésticas: elas eram caladas e
podiam ir ao quintal dos fundos sem gerar nenhum tipo de incômodo.
Para continuar a obra divina era preciso também ser muito
feliz. E a senhora se orgulhava de sê-lo. Isso atraía turistas que traziam
dinheiro para a manutenção do que era de Deus.
Num dia (e num dia muito errado, pois os estrangeiros viriam
visita-la) a senhora descobriu, sobre seu telhado, um rato. Pensou em gritar.
Mas calou, entrou em casa e preferiu continuar tomando seu café. E se as visitas
chegassem e não vissem o rato, que mal haveria? Por outro lado, os ratos se
multiplicam depressa e ela então imaginou dezenas deles sobre seu telhado,
descendo pelos canos, vindo comer seu pão e suas bananas. De repente sentiu nojo
de seus pães e de suas bananas (“Banana é comida de rato”). Seria o caso de
agradar-lhes?
As visitas vieram e se foram, sem notar a presença do rato.
Os dias vieram e se foram também, mas a senhora, antes de dormir, olhando para o
teto, sempre o imaginava transparente, imaginava vários ratos vistos de baixo;
de repente algum deles olhava para dentro do quarto, olhava na direção dela. A
cada dia a população dos ratos aumentava em sua cabeça, e o medo era o de que
eles desabassem sobre ela, de que caíssem, devorassem sua casa que era, afinal,
uma obra divina; medo de que devorassem a ela própria, de que a devorassem como
a um cordeiro, amém.
Certa de que os ratos existiam e se multiplicavam a cada dia, chamou um rapaz forte da rua para ajudar: subiram no telhado e, de fato, encontraram dois ratos. Era uma surpresa, uma grande surpresa triste, porque os ratos pertenciam à sua imaginação, ora essa, os seus pesadelos, seu medo antes de dormir – como lidar agora com essa realidade bruta, ali, no seu telhado? Por dentro da casa, abriram o forro do teto: entre o forro e o telhado é que a realidade se mostrava mais bruta: havia dezenas e dezenas de ratos, pretos, com seus olhos atentos e pedintes. A senhora chorou, primeiro por medo e, depois pela estranha sensação de sonho findo. Sonhar com coisas más era melhor que viver com coisas más. Ou com coisas simples. Sim: sonhar com coisas más era melhor que viver com coisas simples. As coisas simples nos fazem lembrar de que estamos vivos e nos aproximam do fim do mistério, assim como a aproximação do fim de um livro bom. Perigo iminente. Consciência plena demais da própria respiração. Agora, por trás das paredes verdes da casa, havia cimento, e por trás do cimento, tijolos empilhados.
Certa de que os ratos existiam e se multiplicavam a cada dia, chamou um rapaz forte da rua para ajudar: subiram no telhado e, de fato, encontraram dois ratos. Era uma surpresa, uma grande surpresa triste, porque os ratos pertenciam à sua imaginação, ora essa, os seus pesadelos, seu medo antes de dormir – como lidar agora com essa realidade bruta, ali, no seu telhado? Por dentro da casa, abriram o forro do teto: entre o forro e o telhado é que a realidade se mostrava mais bruta: havia dezenas e dezenas de ratos, pretos, com seus olhos atentos e pedintes. A senhora chorou, primeiro por medo e, depois pela estranha sensação de sonho findo. Sonhar com coisas más era melhor que viver com coisas más. Ou com coisas simples. Sim: sonhar com coisas más era melhor que viver com coisas simples. As coisas simples nos fazem lembrar de que estamos vivos e nos aproximam do fim do mistério, assim como a aproximação do fim de um livro bom. Perigo iminente. Consciência plena demais da própria respiração. Agora, por trás das paredes verdes da casa, havia cimento, e por trás do cimento, tijolos empilhados.
Temendo a queda real dos ratos sobre sua cabeça, pensou em
exterminá-los, de uma só vez. Mas o rapaz forte (que também estava muito
assustado) propôs chamar um outro morador da rua, cientista, que poderiam
resolver a questão de outra forma. O rapaz sabia que ele é que seria o
encarregado de matar os ratos, mas também achava que, se os ratos estavam sobre
aquele teto, naquela rua, é porque também eram criaturas de Deus.
O vizinho cientista apresentou o seguinte plano: trancar os
ratos no teto mesmo, trocar o forro, as paredes altas e o telhado por vidro, de
forma que todos na rua pudessem observar os bichinhos e compartilhar o estudo de
seu comportamento. A senhora acatou a idéia sem saber porquê (mais porque
sentisse do que por algo que ele a tenha dito, mais por sentir um tipo de
salvação se aproximando).
Trancados os ratos no vidro, o passo seguinte seria deixá-los
passar fome. Com o tempo, os ratos mais fortes mataram os pequenos e os comeram.
Como se reproduziam depressa, se insistissem neste tipo de alimentação, não lhes
faltaria comida. Os moradores da ruzinha observavam encantados o comportamento
pitoresco das pequenas criaturas, se punham diante da casa da senhora, alguns
colocavam escadas para ver mais de perto, e os mais íntimos viam de baixo, de
dentro da casa. Isso trouxe muita visibilidade para a senhora e para o
cientista, que publicou livros e foi chamado para dar aula na universidade onde
os jovens felizes da rua estudavam.
Mas os ratos não eram bobos e, para eles, os seres humanos
também estavam numa grande vitrine, para serem observados. Os ratos perceberam,
a princípio, que a comida dos moradores era muito mais atraente. Depois notaram
que sua forma de viver era muito mais divertida. Então se organizaram, e por uma
brecha, de vez em quando passavam, em pequenos grupos, para roubar comida e
pedaços de roupa. Tudo isso era feito à noite, de forma que quando a senhora e
os outros moradores acordavam, se deparavam com a cena que julgavam patética: os
ratos enrolados em pedaços de panos coloridos, copiando os seres humanos. No
início pareceu engraçado, até que as roupas ficaram notoriamente esburacadas e o
biscoito faltou para as crianças mais exigentes. Os moradores escutaram o plano
do cientista: eliminar os ratos mais espertos. Depois, os mais fortes. Assim
fizeram, e quando os ratos que sobraram se viram atordoados, o cientista
apresentou uma proposta que escandalizou a todos: alimentar os ratos com
migalhas e produzir roupas e objetos especialmente para eles, coisas que se
assemelhassem às dos humanos, para que os ratos se sentissem acalentados, mas
nunca superiores.
Os ratos, com o tempo, se acalmaram e até se
tornaram amigos dos moradores. Os estrangeiros vinham vê-los também, e se
encantavam com seus modos pitorescos, porém com leves toques de civilização.
Estes fatos eram bons e distraiam os moradores. Inclusive o medo era bom. A
senhora branca e limpa, por exemplo, de vez em quando inventava um sonho ruim: o
de que os ratos se descontentariam, mais dia menos dia, e viriam desabar sobre
ela. Estes medos eram quentes e a faziam esquecer-se do mistério escondido no
horizonte.
Eu, que nunca morei naquela rua, posso dizer
que o que havia no horizonte não era segredo nenhum: o que havia eram ratos, em
maior quantidade, mais pretos, mais magros, com os olhos muito mais atentos e
pedintes. A diferença é que eram fracos para pular o muro e não desabariam na
cabeça de ninguém. Não botavam medo. Mas eram tristes de se ver.
do blog de Luquinhas, http://dentrodacasaescura.blogspot.com.br/
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